"Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível."
Francisco de Assis

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ética planetária



Autor: Edgar MORIN



Apenas o sábio nunca pára de ter  constantemente o todo em mente, nunca  esquece o mundo, pensa e age em  relação com o cosmos. -  Bernard Groethuysen
  
Pela primeira vez, o homem realmente  compreendeu que ele é um habitante  do planeta e talvez deva pensar ou  agir segundo um novo prisma, não  apenas sob o ponto de vista individual,  familiar ou de gênero, estatal,  ou de grupos de Estados, mas também  sob o prisma planetário. -  V. Verdnadski
  
Ignorar o mundo, ignorar a humanidade, é  uma falha mental freqüente dos  intelectuais mais sofisticados.-  Hadj Garm’Orim

O humanismo planetário

Pela primeira vez, na história humana, o universal tomou-se realidade concreta: é a intersolidariedade objetiva da humanidade, na qual o destino global do planeta sobredetermina os destinos singulares das nações e na qual os destinos singulares das nações perturbam ou modificam o destino global.
O    termo “globalização” deve ser concebido não apenas de maneira tecnoeconômica, mas também como uma relação complexa entre o global e as particularidades locais que aí se acham englobadas: os componentes da globalidade são elementos e momentos de um grande circuito recursivo no qual cada um é, ao mesmo tempo, causa e efeito, produtor e produto.
Existiu um universalismo abstrato do antigo internacionalismo que não podia reconhecer as comunidades concretas das etnias ou pátrias. Mas as comunidades concretas tornam-se abstratas desde que se fecham sobre si mesmas, separam-se e isolam-se, abstraindo-se, nesse sentido, da totalidade da comunidade humana. E, vale repetir, esta é concreta, mesmo se ainda não é vivida como tal, pois é uma comunidade de destino e uma comunidade de origem.
O universalismo concreto não opõe o diverso ao uno, o singular ao geral. Baseia-se no reconhecimento da unidade de diversidades humanas, das diversidades da unidade humana. A ética planetária é uma ética do universal concreto.
Todas as éticas de comunidades nacionais eram fechadas. Precisamos agora de uma ética da comunidade humana que respeite as éticas nacionais integrando-as.
Os fragmentos de humanidade estão agora em interdependência, mas esta não cria a solidariedade; estão em comunicação, mas as comunicações técnicas ou mercantis não criam a compreensão; a acumulação de informações não cria o conhecimento; e a acumulação de conhecimentos não cria a compreensão.
Ao mesmo tempo que se desenvolvem os inúmeros processos de unificação (técnicos, científicos, civilizacionais), deslocamentos formidáveis, regressões, fechamentos (nacionais, étnicos, religiosos) acontecem.
A antropoética e antropolítica devem enfrentar a insustentável complexidade do mundo entregue a um caos do qual não se sabe se é de agonia ou de gênese.

Os nove mandamentos

Vimos tudo o que separa ética e política. Ora, os tempos atuais reclamam a conjunção desses termos numa antropolítica que integre os imperativos da ética planetária.
A ética planetária só pode afirmar-se a partir das tomadas de consciência capitais:
1. Tomada de consciência da identidade humana comum na diversidade individual, cultural, de línguas.
2. Tomada de consciência da comunidade de destino que liga cada destino humano ao do planeta, até na vida cotidiana.
3. Tomada de consciência de que as relações entre seres humanos são devastadas pela incompreensão e de que devemos educar-nos para a compreensão dos próximos, mas também dos estranhos e distantes do nosso planeta.
4. Tomada de consciência da finitude humana no cosmos, o que nos leva a conceber que, pela primeira vez na sua história, a humanidade deve definir os limites da sua expansão material e ao mesmo tempo empreender o seu desenvolvimento psíquico, moral e espiritual.
5. Tomada de consciência ecológica da nossa condição terrestre, que compreende nossa relação vital com a biosfera. A Terra não é a soma de um planeta físico, de uma biosfera e de uma humanidade. A Terra é uma totalidade complexa física-biológica-antropológica em que a Vida é uma emergência da sua história e o homem uma emergência da história da vida. A relação do homem com a natureza não pode ser concebida de maneira redutora ou separada. A humanidade é uma entidade planetária e biosférica. O ser humano, ao mesmo tempo natural e sobrenatural, deve buscar novas forças na natureza viva e física da qual emerge e da qual se distingue pela cultura, pelo pensamento e pela consciência. Nosso vínculo consubstancial com a biosfera nos leva a abandonar o sonho prometéico do controle da natureza pela aspiração ao convívio na terra.
6. Tomada de consciência da necessidade vital da dupla pilotagem do planeta: combinação da pilotagem consciente e reflexiva da humanidade com a pilotagem eco-organizadora inconsciente da natureza.
8. A prolongação no futuro da ética da responsabilidade e da solidariedade com os nossos descendentes (Hans Jonas), de onde a necessidade de uma consciência teleobjetiva, mirando alto e longe no espaço e no tempo.
9. Tomada de consciência da Terra-Pátria como comunidade de destino/de origem/de perdição. A idéia de Terra-Pátria não nega a solidariedade nacional ou étnica e não tende de forma alguma a arrancar cada um da sua cultura. Acrescenta aos nossos enraizamentos um enraizamento mais profundo na comunidade terrestre. A idéia de Terra-Pátria substituiu o cosmopolitismo abstrato, que ignorava singularidades culturais, e o internacionalismo míope, que ignorava a realidade das pátrias. Acrescenta à fraternidade a fonte necessária da maternidade inerente ao termo “pátria”. Nada de irmãos sem mãe. A tudo isso soma-se uma comunidade de perdição, pois sabemos que estamos perdidos no universo gigantesco e estamos todos fadados ao sofrimento e à morte.
A missão antropo-ética-política do milênio é realizar a unidade planetária na diversidade.
Cabe-lhe vencer a impotência da humanidade para constituir-se como comunidade, de onde a necessidade de uma política de humanidade.
Deve civilizar a Terra ameaçada pela explosão de antigas barbáries e pela generalização da nova barbárie gelada da dominação pelo cálculo tecnoeconômico, de onde a necessidade de uma política de civilização.
Tem de regular os quatro motores descontrolados que impulsionam a nave espacial Terra rumo ao abismo:

ciência > técnica > economia —> lucro

 Como vimos, cada um desses motores possui uma carência ética radical: a ciência exclui todo juízo de valor e todo retomo à consciência do cientista; a técnica é puramente instrumental; o lucro invade todos os campos, inclusive os seres humanos e os seus genes.
É nessas condições que se impõem:
-  uma ética da compreensão planetária;
-  uma ética da solidariedade planetária.
 Kant tirou uma primeira e capital lição ética da era planetária, adiantando que a finitude geográfica da nossa Terra impõe aos seus habitantes um princípio de hospitalidade universal, comportando o dever de não tratar o estrangeiro como inimigo. Como vimos, a ética da hospitalidade era uma forma arcaica de antropoética em muitas civilizações tradicionais. A era planetária suscitou inúmeras migrações de recantos indigentes às nações ricas; em vez de rejeição e desprezo, a ética de hospitalidade ordena que o migrante seja acolhido e adotado.
O    humanismo planetário é, ao mesmo tempo, produtor e produto da ética planetária. A ética planetária e a ética da humanidade são sinônimos.
É notável que as primeiras grandes sínteses antropoéticas tenham sido feitas por pensadores indianos (Ramakrishna, Vivekananda, Aurobindo), que incorporaram nossas contribuições, e não por ocidentais.
É notável que verdadeiras autoridades éticas do nosso planeta, que despertaram para a consciência do problema geral e do interesse geral da humanidade, foram e são personalidades não européias: Ghandi, Nelson Mandela, Dalai-Lama, Octavio Paz, Aimé Cesaire, Raimondo Pannikar.
É notável que os males que ameaçam o planeta (poluição, perigo nuclear, manipulações genéticas, destruições culturais) sejam todos produzidos pela racionalidade ocidental (Wojciechowski). O próprio terrorismo planetário, na vontade de destruir o Ocidente, só pôde desenvolver-se graças às técnicas do Ocidente.
Não é menos notável que os direitos do homem, direitos da mulher, democracia, secularização, etc., tenham nascido no Ocidente. A ética planetária só pode ser simbiótica.

A ética planetária

Sociedade-mundo?

Onde estamos na era planetária? Minha tese é que a globalização do fim do século XX criou as infra-estruturas comunicacionais, técnicas e econômicas para uma sociedade-mundo. A internet pode ser considerada como o esboço de uma rede neurocerebral semi-artificial de uma sociedade-mundo. Mas a economia liberal, responsável pelas infra-estruturas, toma impossível a formação de uma tal sociedade, pois inibe a constituição de um sistema jurídico, de um governo e de uma consciência comum. Ora, a sociedade-mundo, para emergir, necessita de um direito e de instâncias planetárias capazes de enfrentar os problemas vitais das humanidades; necessita, no mínimo, de uma reforma da ONU, tendo por horizonte uma confederação das nações e a democratização do planeta. Necessita, vale repetir, de uma política da civilização e de uma política da humanidade que substituam a política de desenvolvimento. Necessita. ao mesmo tempo como ponto de partida e como efeito, do aprofundamento na psique de cada um de uma consciência simultaneamente ética e política de pertencimento a uma mesma Terra-Pátria.
Não há como mascarar os enormes obstáculos que se opõem ao aparecimento de uma sociedade-mundo. O progresso unificador da globalização gera resistências nacionais, étnicas e religiosas que produzem uma balcanização crescente do planeta; a eliminação dessas resistências acarretaria, nas condições atuais, uma dominação implacável.
Há sobretudo a imaturidade dos Estados-nação, das mentes, das consciências, ou seja, essencialmente imaturidade da humanidade para realizar-se.
Significa, em conseqüência, que, se conseguisse impor-se, seria uma sociedade-mundo bárbara. Não aboliria a exploração, a dominação, a exclusão e as desigualdades. Contudo, venceria a soberania absoluta dos estados nacionais e permitiria o controle do quadrimotor ciência/técnica/economia/lucro cuja marcha descontrolada nos conduz ao abismo.
Estamos diante de uma contradição: a sociedade-mundo é uma condição prévia para sair da crise da humanidade, mas a reforma da humanidade é uma condição prévia para chegar a uma sociedade-mundo para além da idade de ferro planetária.

In: MORIN, Edgar. O método 6: ética. Porto Alegre, Sulina, 2005. pg.162-167.

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